Às margens do desconhecido
Ao mesmo tempo em que sigo convicta sobre não dever me sentir culpada por estar me descobrindo de verdade, com toda minha carga emocional e de sentimentos não explorados, mas existentes e há muito abafados e negados, também sinto o peso emagador da dúvida sobre a assertividade de minhas escolhas.
É difícil se descobrir e se "definir", ou só tentar, num processo que envolve terceiros. Eu não sei até que ponto estou seguindo o caminho que estou seguindo por mim ou pelos outros.
A palavra "egoísmo" me persegue desde muito nova, quando minha mãe e seu companheiro definiam meus comportamentos da forma que eles enxergavam no momento, sem considerar ou perguntar o que eu estava sentindo sobre determinada situação ou circunstância.
Isso, aos poucos, foi me condicionando a sempre buscar pela aprovação deles, mesmo que isso envolvesse negar minhas vontades e crenças, para que não fosse julgada e aquele adjetivo parasse de me seguir a cada frase que soltavam a meu respeito.
Eu nunca entendi muito bem de onde esse egoísmo vinha. Se era fruto de comportamentos notadamente egoístas meus ou da expectativa deles sobre mim, se o que eu faria seria conveniente ou não com as necessidades deles.
Hoje enxergo que por muito tempo neguei a mim mesma e me esforcei para obter uma aprovação que nunca veio. E jamais viria. Mas essa é matéria para uma outra conversa.
Aqui trato do que acredito ser a origem de meu bloqueio. Da negação de meus sentimentos para o bem estar alheio com minha existência.
Por que me neguei para que outros se sentissem confortáveis?
Jamais apresentei comportamentos ofensivos, maldosos, que feriam outras existências.
Hoje vejo que essa busca pela perfeição condicionou meu ego a uma sensibilidade cada vez maior, ao passo que cada derrota me destruía um pouco mais que a anterior. Eu claramente não estava preparada para lidar com perdas e negativas, mas o que eu não sabia é que a vida é isso muito mais do que vitórias e momentos de felicidade genuína.
Nessa mesma direção, tampouco fui preparada emocionalmente para as situações que sucederam a partir de minha adolescência.
Aprendi que conseguir o que desejo nem sempre é a melhor alternativa;
Compreendi que perseverar é diferente de não desistir;
Entendi que dar vazão a comportamentos instintivos após certas perdas ou frustrações era a pior forma de lidar com elas. E, na verdade, não era nem lidar, era ludibriar, matar o tempo, me recusar a enfrentar a dor.
Eu precisava raciocinar, racionalizar meu coração.
O que estou tentando explorar internamente é minha própria "Terra de Ninguém". Hic sunt dracones! Instintos, sentimentos, impulsos que nem sabia que existiam há algum tempo atrás, porque estava em negação.
E porque julgava os outros, baseada no senso de perfeição que desenvolvi para mim mesma, ignorando o quão imperfeita eu sabia que era.
A terapia me ajudou muito a aceitar essa imperfeição e a assumir meus sentimentos, por mais feios e reprováveis que eles fossem. Este era o primeiro passo.
Porém, interrompi o processo sem saber qual seria o próximo e agora sinto uma dificuldade helênica para descobrir sozinha.
A questão é que não há ninguém melhor que eu mesma para remover esse véu.
Who knows better?
Quem me viu completamente despida? Mentalmente nua? Quem viu minhas galáxias expostas a olho nu? Ninguém.
Tenho desejos intrínsecos que evito dar voz. Vejo o mundo de formas que, nesses e em outros tempos, meu destino, por certo, seria a fogueira.
Mas do fundo deste poço abismal, consigo vislumbrar a liberdade na superfície, como um blur... Mas vejo a luz!
Só não sei se eu não sou capaz de entender ainda o funcionamento do mundo em que vivo ou se o mundo não está preparado para minha forma de pensar (e essa é a alternativa mais egocêntrica, como se pode perceber). Para manter o equilíbrio procuro considerar as duas opções.
Preciso de forças para resistir sem ar, até que possa emergir para onde realmente pertenço: dentro da imensidão do firmamento, onde finalmente me vejo livre!
- fae
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