caixa postal (monólogo)
- alô?
- olha, eu saí com um cara, conhecido de longa data, que apareceu no mesmo dia que você disse que tava conhecendo alguém melhor.
- admito que eu não queria ele em si, mas desejava tentar relaxar um pouco naquele momento que senti que teria que parar de te ver, e tentei tirar você da cabeça do jeito mais ineficiente possível: dando pra outro.
-então eu fui. o cara me buscou, parou no meio da rua dando a maior bandeira, saiu pra abrir a porta pra mim, e nessa hora eu já estava constrangida porque meus vizinhos estavam todos do lado de fora...
- fomos pra brasília num restaurante de bacana: ótimo jantar, conversa mediana. depois ele veio me beijar e eu deixei - já não tinha sentido recuar - sugeriu um hotel pra voltar no outro dia e aceitei.
- daí, chegando no carro ele me dá uma sacola de presente com uma bolsa linda, sabe? e até meio cara na real. fiquei lisonjeada e aceitei. pensei: ele não tá exagerando? eu mereço isso mesmo ou ele é doido? me dei conta que eu tô acostumada a não receber nada, além de um tratamento regular. e talvez por isso eu esteja sempre com a expectativa baixa, então acabo sempre esperando o abandono ou ser vencida pelo cansaço.
- mas é que minhas prioridades são muito diferentes! eu penso que minha colaboração em força de trabalho, presença e suporte é muito mais valiosa que fidelidade, por exemplo.
- eu penso que é injusto querer impedir o outro de sentir o que quiser, com quem quiser, quando quiser... e SE quiser.
- você sabe, caralho, que eu não sou nenhuma vagabunda! eu sou uma trabalhadora, com uma grande dose de loucura, claro... mas acrescento sempre! só não sou posse de ninguém. eu sou uma pessoa individual no mundo. sinto que não me encaixo.
- tô falando tudo isso pra te comunicar que vou mudar o meu sentimento por você, nem que seja na marra!
pra algo mais fraterno, menos íntimo...
é óbvio que por minha conta, eu jamais tirarei você da minha vida. e não ouse sair! não era nem sobre isso! olha, não vamos mais transar, ok? embora dizer isso seja doloroso pra mim. você sabe que é especial.
- olha, eu digo isso porque sei que não sou suficiente pra suprir a sua expectativa. eu sei que nunca teria a sua confiança. eu sei que em algum momento o meu jeito acaba se tornando um motivo de conflito. a gente não conversa. ninguém se abre direto. estamos sempre entalados...
- eu te amo demais pra não olhar pra realidade.
- e eu também não sou de ferro, né porra.
- eu sinto queimar minha garganta e gelar o meu peito com a ideia de ver você com outra pessoa... porque isso significaria que você não estaria disponível pra ser um pouco meu também...
- olha, eu não engano ninguém. não existe nenhuma vítima nessa história. eu suporto coisas por pura responsabilidade, porque entendo que preciso, e porque entendo ser o mais adequado, muito além de desejo.
- até porque eu só posso falar de desejo com você seu gostoso miserável
- porra, desde que ele voltou eu apenas bato cartão esporadicamente, só pelo regulamentar. ninguém chupa minha buceta, ninguém me toca como você faz. ninguém se conecta a minha alma como você faz... e é isso que me faz padecer, porque sei que não tem como funcionar assim...
- é claro que isso é a minha perspectiva dos fatos, já que você nunca se abriu comigo sobre o que você realmente sente: são sempre indiretas ou poucas palavras.
- você reticente
- me penetra
- eu digo que te amo
- você recua
- eu me entrego, te sinto, me abro
- eu gozo e encontro paz, te abraço
-Você goza, geme, me cobre
- te maldigo: filho da puta!
- só você faz assim...
daí eu volto pra minha rotina, suporto o morno e não vou esperar que entenda.
- sabe, o que eu queria era poder ser sua e ter você quando possível, e que isso fosse motivo apenas de amor e paz.
- mas entendo que é uma praia progressista demais pra falar por telefone! ou pra falar com você.
- é uma pena que não seja recíproco, acho que pra você não é, e tudo bem se for assim. talvez seja até mais fácil se você não me amar do mesmo jeito.
- olha, eu já falei de mais. puta que pariu.
-bom, tô aqui pra o que precisar, exceto ser madrinha de casamento, mas posso ser apenas convidada pra comer de graça as tuas custas.
- Ah! e o sexo com o cara do encontro foi ok.
- Só não era você, infelizmente.
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